RUÍNAS ALADAS

Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.



Sábado, Maio 28, 2005


Gabinete do Dr. Caligari (1919) - Expressionismo Alemão

O EXPRESSIONISTA

Ele chega, seguido por sua sombra andarilha. Nas paredes, plantas carnívoras devoram os ratos de olhos vermelhos. Segura uma faca gigante, com a qual espalita os dentes cheios de pedaços. Uma mulher arrasta, pelos cabelos, a criança nua, que sorri com dentes amarelados. Da janela losangular, o pombo-águia alimenta sua ninhada com fígado ensangüentado. Ele chega e deposita a montanha de pedra cinzenta sobre a mesa da sala. O pé calçado é estendido sobre o sofá, enquanto cochila um cansaço roncador. A vizinha hipnotiza o marido para que volte a cumprir sua tarefa doméstica. O rádio toca tango argentino. A cidade em preto e branco. Os vermes sonâmbulos se arrastam ladeira acima, levando consigo carcaças antropológicas. Ele olha a Lua e se transforma. Os dedos arrancam os olhos do gato equilibrista, que foge correndo e se enforca no fio da televisão tecnicolor. Dentes milimétricos. A vaca cacareja no meio da rua repleta de carros, motos, bicicletas, helicópteros, porta-aviões, trens-bala. Todos se chocando uns com os outros, no caos, no desequilíbrio de corpos e de trombones. A virgem assiste ao Gabinete do Dr. Caligari e tem orgasmos múltiplos. O primeiro homem glam do cinema vanguardista. Gritos no espelho de olhos vazados. Um bilhão, duzentos e trinta e quatro milhões, quinhentos e sessenta e sete mil, oitocentos e noventa ovos de granja azuis são paridos por um pato velho, dando um saldo de novecentos e oitenta e sete milhões, seiscentos e cinqüenta e quatro mil, trezentos e vinte e um pintos famintos e duzentos e quarenta e seis milhões, novecentos e treze mil, quinhentos e sessenta e nove fetos abortados. Estatísticas de um telescópio de mil pés e mil teleféricos telepáticos. A criança sem cabelos sai correndo e soltando flatos verdes, enquanto a mãe corta as próprias pelancas para fritar na ceia matutina. Ele arranca o braço esquerdo com uma machadada, para se livrar da incomoda sensação da unha encravada do dedo mindinho. O pombo-águia arremessa sua ninhada do topo do mundo, e as bolinhas peludas e obesas caem fazendo um barulho engraçado, tipo ploft, quando chegam lá embaixo. Todos querem experimentar a vivência da subjetividade tresloucada. Uma cena familiar... O anônimo elabora uma sentença aritmética e se enforca com o cadarço da bota cano alto azul turquesa.

(L. F. Calaça | 29/05/2005)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 3:18 PM Comments:




Gabinete do Dr. Caligari (1919) - Expressionismo Alemão

Título: O Gabinete do Dr. Caligari
País(es) de Origem: ALEMANHA
Ano de Produção: 1919
Elenco:
Conrad Veidt
Lil Dagover
Werner KraussM
Direção: Robert Wiene
Duração: 52 minutos
Faixa etária: Livre

Num pequeno vilarejo da fronteira holandesa, um misterioso hipnotizador, Dr.Caligari, chega acompanhado do sonâmbulo Cesare, que, supostamente estaria adormecido por 23 anos. A noite, Cesare perambula pela cidade, concretizando as previsões funestas do seu mestre.
Clássico do horror e um dos melhores já feitos de todos os tempos. A gênese do estilo expressionista no cinema.

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 3:14 AM Comments:



Sábado, Maio 21, 2005



PRÊMIO BRASKEM DE CULTURA E ARTE 2005

LITERATURA

1. OBJETIVO

O Prêmio Braskem Cultura e Arte foi criado pela Braskem com o objetivo de promover e incentivar a produção literária baiana, para autores inéditos, nos gêneros ficção e poesia. A coordenação de inscrição, avaliação e escolha dos trabalhos serão da Fundação Casa Jorge Amado.

2. CONCORRENTES

Poderão concorrer ao Prêmio Braskem Cultura e Arte - Literatura, autores inéditos, nascidos ou radicados na Bahia, comprovadamente, há mais de dois anos.

2.1. Entende-se como inédito o autor que ainda não tenha nenhum livro publicado, podendo, entretanto, ter veiculado trabalhos em jornal, revista ou antologias.

3. INSCRIÇÕES

As inscrições para o Prêmio Braskem Cultura e Arte ¿ Literatura, serão feitas mediante o atendimento das seguintes condições:

- Apresentação de 03 cópias impressas dos originais do livro, acompanhadas por um disquete do mesmo, em Word.

- Nas cópias do livro e no disquete não deverão constar nenhuma alusão ao nome do autor, pois as mesmas serão identificadas por determinado número, no ato da inscrição.

- Breve currículo do autor.

- Preenchimento da ficha de inscrição.

3.1. O concorrente devidamente inscrito compromete-se a acatar este regulamento, as decisões da Comissão Julgadora e das instituições promotoras do Prêmio Braskem Cultura e Arte - Literatura.

4. PRAZOS DE INSCRIÇÃO

As inscrições poderão ser feitas de 02 de maio a 02 de junho de 2005. O resultado será divulgado até o dia 15 de julho de 2005.

4.1. As inscrições deverão ser encaminhadas em envelope lacrado, com a identificação Prêmio Braskem Cultura e Arte Literatura, e destinado à Fundação Casa de Jorge Amado - Largo do Pelourinho, s/nº, Pelourinho - Salvador/BA - tel.: 3321-0122.

5. AVALIAÇÃO DOS TRABALHOS

A avaliação dos trabalhos inscritos será realizada por uma Comissão Julgadora indicada pela Braskem e Fundação Casa de Jorge Amado.
A comissão será composta por três membros escolhidos entre escritores, professores e críticos literários de notório reconhecimento na comunidade baiana.

6. O PRÊMIO

Serão selecionados 03 (três) autores inéditos dos gêneros ficção ou poesia, indistintamente, que terão como prêmio a publicação, em 2005, do livro inscrito, patrocinado pela Braskem e editado pela Série Inéditos da Coleção Casa de Palavras, Fundação Casa de Jorge Amado.

6.1. Cada publicação terá uma tiragem de 1.000 exemplares, recebendo cada autor, a título de direito autoral, o equivalente a 30 por cento
da edição, em livros.

6.2. A Braskem poderá, a seu único e exclusivo critério, destinar recursos técnicos e financeiros para ações promocionais relativas ao
projeto.

7. DISPOSIÇÕES FINAIS

7.1. À Braskem será assegurado o direito, sem qualquer ônus, de citar qualquer patrocinado em material publicitário da empresa. Os custos de produção dessa divulgação correrão por conta da Braskem.

7.2. Os originais de trabalhos, premiados ou não, não serão devolvidos.

7.3. Os casos omissos serão resolvidos pela Braskem e Fundação Casa de Jorge Amado.

7.4. Integrantes do quadro da Braskem não poderão concorrer ao Prêmio Braskem Cultura e Arte - Literatura.

(ver site: www.braskem.com.br)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 3:07 PM Comments:



AS ARANHAS

"Paredes e assoalho estavam descoloridos, tudo tinha despotado;
as teias de aranha estavam agora multiplicadas".

NOITES BRANCAS, Fiódor Dostoiévski

Pernas invisíveis sustentando, como estruturas metálicas de torres de transmissão, um corpo circular. Caminham vagarosamente ou deslizam por fios também invisíveis. O vento ciclonal do ventilador de teto balançam-nas no ar, pendulares, fixas e seguras do espaço vago para onde suas estruturas são arremessadas. Alimentam-se de cupins cegos, que antes devoravam meus olhos. Sugam-lhes o ventre liquido, deixando apenas a casca, o exoesqueleto rígido e quitinoso. Quando mortas, flutuam que nem sementes aéreas que se desprendem com a brisa. Aranhas. Aranhas são criaturas repletas de modernismos. Tecnologicamente elaboradas sob um design futurista, cibernético, transcendental. Nas paredes tortas, cor de branco neve, nuas, sem estantes, livros, móveis imóveis e empoeirados, as aranhas tornam-se formas nítidas, penduradas no teto zoomórfico. Nas paredes laranja são pontos negros. Pernas parabólicas. Corpo de esfera metálica. Detectam as impressões digitais das pontas de meus dedos. Sei que tecem meu paletó invisível. Sei que povoam meu tempo e o espaço claustrofóbico atrás de mim. Teias imensas, infinitamente entrelaçadas, adesivas, indevassáveis. Preso como uma mosca varejeira, como uma formiga de asas. Odeio os cupins cegos que devoraram meus olhos e tentam... tentam adentrar meu rosto barroco. Atormentado pelo suspiro que jamais foi expirado. Grampeio-me. Encasulado como um bicho tecedor de retalhos. Adormecido como um doente, um demente, um ser perdido num espaço sem escadas ou goteiras. Tudo à volta é absolutamente puro, sem, ausente. As aranhas tecem o véu da noiva e da ninfa sufocada pela águas. Gritos inaudíveis. Esferas fragmentadas. Desejo de perpetuação. Desejo? Um beijo apenas, após o coito da viúva negra.

(L. F. Calaça | 15/05/2005)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:54 PM Comments:



Sábado, Maio 14, 2005

ANÔNIMO

Acorrentado neste abismo de gavetas,
tropeço meu equívoco e minha dúvida
nas minúsculas esferas sob o teto.
Algemados os punhos sobre a mesa verde.

As valsas delirantes nos saleiros,
formigas gigantes carregando tudo:
pratos, pernas, filosofias, paranóias...
Aonde guardo o espelho, afinal?

Janelas emperradas por camadas
de tinta velha sobreposta aos desejos.
Jamais saberei dos mistérios dos santos
e morrerei sem desfrutar de minha incerteza.

Serei? Saberei ser algo tão fixo e mutável?
Saberei esperar o fim e o retrocesso do tempo?
Relativisando os pingos e tremas temerários...
Sufocando meus delírios em um copo d¿água.

Para que continuo? Para quem?
Escrevo cartas solitárias no escuro.

(L. F. Calaça | 10/05/2005)



VINTE MINUTOS

Vinte minutos...
Eu
As cadeiras dispersas
O guarda-chuva aberto
A lata de Coca-Cola light que alguém deixou.

O som de vozes no pátio
Água ensaboada lavando o chão
Repleto de pés
Repleto de pés
Eu e as cadeiras dispersas.

Alguém?
Alguém?
Alguém?
A loucura proclamada em versos brancos
A loucura, nua e promíscua
afixada em murais, nas paredes

O poeta em silêncio
O momento em silêncio
O homem, o nome, o verso
canção inteligível

Vinte minutos repletos de pés.

(L. F. Calaça | 13/05/2005)



URBANOS

Pernas cruzadas no cruzamento
entre treze ruas e treze faróis.
Pés calçados com tênis velhos
e os passos perdidos na calçada.

Imobilidade, idade imóvel.
Coisas idiotas escritas nos olhos.
Pequenos segundos dispersos
e o mundo caindo morto no chão.

Mulheres, crianças, leprosos...
O desabafar de um suicida
O tropeçar de um epiléptico
O sorriso sem dentes e boca.

Pequenos hemisférios vazados,
raízes penetrando cavernas,
segmentos de idéia amaldiçoados
e o último farol lançando sombras.

Pernas cruzadas correndo.

(L. F. Calaça | 13/05/2005)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 8:08 AM Comments:




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